Cearás no Festival de Brasília

Sertão e capital, memória e futuro. Facetas complementares reveladas pelo cinema cearense no 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em comum, a produção expõe o pouco orçamento.

pobres-diabosUm acaso não muito bem-vindo fez o cinema cearense repercutir em cada uma das três primeiras noites das mostras competitivas do 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que tem seu encerramento marcada para amanhã na capital brasileira. Se a programação já previa a exibição do longa Os Pobres Diabos, do fariasbritense Rosemberg Cariry na quarta-feira, e do curta Lição de esqui, dos fortalezenses Leonardo Mouramateus e Samuel Brasileiro, um problema generalizado com a mídia digital de formato DCP acabou ocasionando a interrupção e cancelamento da sessão de estreia do filme de Cariri fora do Ceará. Das lágrimas derramadas pelo mestre cearense, risos com o sucesso da exibição lotada na sexta-feira (20).

Por André Bloc em O Povo.

E o que Brasília pôde ver em três dos seis dias de exibições na mostra competitiva foi um cinema que cresce em meio às suas dificuldades e em sua pluralidade. Rosemberg Cariry, filósofo por formação, cineasta por vocação, levou sua visão única das agruras de um circo itinerário no sertão cearense ao festival, após o sucesso na primeira exibição de Os Pobres Diabos, em Fortaleza, no encerramento do Cine Ceará no último dia 14. Já Leonardo e Samuel, colegas estudantes da primeira turma de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará (UFC), mostraram a despedida de uma amizade em uma Fortaleza entre a Maraponga e a Aldeota – não coincidentemente os berços artísticos dos dois realizadores, respectivamente.

Criadores e criaturas

O menor dos dois filmes é definido mesmo por seus realizadores como um “filme de dois meninos sobre dois meninos”. “Acaba que o filme que nasce da relação com os garotos (os protagonistas não-atores Carlos Victor e Sandio Marçal). Era uma relação entre dois diretores e dois atores – ia ficar meio manco se fosse só eu com os atores”, conta Leonardo Mouramateus, diretor e roteirista de Lição de Esqui. Em tela, o que se vê é uma dupla de amigos tentando lidar com a iminência da partida de um deles para o Canadá, o desejo de fuga acumulado por parte da juventude fortalezense. E não falta palavrão e porrada nesse “bromance” (romance platônico entre homens).

Já o longa tem elenco encabeçado pelo casal Chico Díaz e Sílvia Buarque – pela primeira vez contracenando –, por Gero Camilo em seu primeiro longa de sua terra natal e por Everaldo Pontes. “Desde os 19 anos, ele (Rosemberg) é preocupado em trazer as manifestações populares do povo dele. Isso para um ator é uma fonte muito rica de informação. O Rosemberg se propõe a percorrer uma geografia no cinema brasileiro”, defende Chico Díaz, em seu terceiro trabalho com o diretor. “Agora ele está com um rigor estético, um rigor da narrativa que é muito interessante”, completa, comparando com o trabalho em Corisco & Dadá (1996).

A trama gira em torno do paupérrimo Gran Circo Americano em sua tentativa de sobrevivência. Com um picadeiro lotado de reminiscências, Os Pobres Diabos mergulha na cultura popular para explicar a contemporaneidade e na alegoria para responder ao questionamento de todo artista. “Os artistas brasileiros vivem algo como um exílio em seu país, uma jornada em busca do seu povo e, muitas vezes, sem encontra-lo. É cada vez mais difícil fazer arte num mundo onde o mercado se impõe cada vez mais, sem espaço para um cinema que pense. É a tragédia atual da arte brasileira”, defende Rosemberg.

Leonardo defende que Lição de Esqui busca uma melancolia alegre. Já Os Pobres Diabos faz comédia em meio à subsistência dramática. Em sua obra, Rosemberg mostra a fé dos circenses na arte, uma fé de todo mundo que luta pela arte. “Só restava a eles acreditar”, explica Rosemberg, falando um pouco de seu filme e um pouco de si. Nas duas dificuldades de finalização, tão diferentes e tão próximas, surge o futuro do cinema local.

“É esse lugar de risco, de incerteza que abre possibilidades. Não é ‘qual o cinema cearense’, mas o que a gente quer o cinema cearense?’”, questiona Leonardo. “A gente faz para tentar descobrir”, fecha Samuel. E mesmo entre tantas dificuldades, o aplauso – retribuição devida ao artista –, não faltou para as noites cearenses do Festival de Brasília. A premiação é consequência.

Memórias e futuros

Perguntado sobre suas motivações no cinema, Rosemberg se foca no passado para expressar tudo que viu e viveu. “Eu tenho esse sentimento de estar produzindo uma memória, de estar dando uma contribuição histórica”, diz o cearense, verbalizando o desejo de distribuir seus filmes em cinematecas e acervos históricos. “Quero todo esse acervo como patrimônio comum”, completa. O desejo de Rosemberg é manter o diálogo com a cultura popular para preservá-la. “Não como em um museu, mas para suscitar novos questionamentos, transformações”.

Diante de pergunta semelhante, Mouramateus defende que são as parcerias e a possibilidade de juntar diferentes pessoas em projetos o que impulsiona o cinema local. “A gente não tem um pensamento político para o cinema cearense. O Ceará possibilita quase um amadorismo profissional. A gente é amigo e gosta de fazer filme junto – isso é muito mais legal”, defende Samuel. “A gente é muito novo, a gente ainda está tentando se descobrir”, defende a dupla, sábia de que horizonte cinematográfico ainda está à frente tanto de quem tem 20 poucos anos ou mais de 30 só de carreira.

Saiba mais

Rosemberg Cariry tem 60 anos e nasceu em Farias Brito, no Cariri cearense. Com Os Pobres Diabos chegou a marca de 12 longas metragens dirigidos, entre eles O caldeirão da santa cruz do deserto (1986) Corisco & Dadá (1996).

Leonardo Mouramateus, 22, é estudante na UFC. Lição de esqui é seu sexto curta metragem. O anterior, Mauro em Caiena, recebeu dos prêmio no 23º Cine Ceará, no início do mês. Samuel Brasileiro, 21, também é aluno da UFC e tem outros quatro curtas em seu currículo, além dos vídeo-diários Os brasileiros assistem à televisão depois do jantar.

Depois de Brasília, Lição de esqui viaja para o Festival do Rio, para o Curtas BH, para a Janela Internacional do Cinema, em Recife (PE), além da estreia em Fortaleza, no Cine Caolho. Já Rosemberg se prepara para ganhar uma mostra retrospectiva de seus 12 filmes em Cuba, além de lançar suas obras pelo selo Lume.

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