Cinema cearense volta para casa com quatro prêmios na mala

“Os Pobres Diabos” e “Lição de Esqui” foram premiados na noite de encerramento do evento, na noite de terça.

As produções cearenses “Os Pobres Diabos”, de Rosemberg Cariry, e “Lição de Esqui”, de Leonardo Mouramateus e Samuel Brasileiro saíram vitoriosos do 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O primeiro conquistou o Prêmio do Júri Popular de melhor filme e o prêmio especial Exibição TV Brasil; o segundo, os de melhor roteiro e melhor curta-metragem de ficção. O cineasta veterano e os meninos da escola de cinema da UFC elevam o cinema cearense em um momento especial juntamente com o sucesso de “Cine Holliúdy”, de Halder Gomes. Alerta para o Governo do Estado e de seu secretário da Cultura para uma reflexão quanto à sua política cultural de cinema. É chegada a hora.

“Os Pobres Diabos”, de Rosemberg Cariry, e “Lição de Ski”, de Leonardo Mouramateus e Samuel Brasileiro, representaram o cinema feito no Ceará: sinal de alerta para o poder público no Estado

Encerrada a 46ª edição do Festival de Brasília do cinema brasileiro, uma perguntinha filosófica apoquenta a minha cabeça: será este o cinema brasileiro que temos? Faço esta pergunta porque os filmes que vi aqui durante sete dias foram desanimadores. Não se trata de uma questão de culpar a curadoria, obviamente, porque deve ter sido um martírio conseguir selecionar seis longas de ficção, seis longas documentários, seis curtas de ficção, seis curtas documentais e seis curtas de animação. Esses selecionados disputaram os troféus Candangos em suas categorias.

O Festival de Brasília 2013 fica marcado como o Festival da perplexidade. A minha perplexidade, porque os filmes que vi aqui só chegam, e com boa vontade, ao nível “bom”. E isso é, pelo menos para este crítico, preocupante, porque serão esses os filmes que vão chegar aos cinemas do País neste e no próximo semestre. Brasília não teve um “grande filme”. Desculpem, aliás, teve: “Os Pobres Diabos”. Título metafórico este o da obra de Rosemberg Cariry porque expressa a consciência da objetividade e da razão da feitura de um filme.

“Os Pobres Diabos” foi o grande filme deste festival. Só que os críticos e o júri oficial não o reconheceram. Mas, isso não tem importância porque o público, ao qual o filme se destina, o elegeu como o melhor de todos.

E isso, em uma situação crítica porque o filme de Cariry sofreu com a interrupção de sua projeção no dia de abertura dos competidores. Depois, foi reexibido à meia-noite de uma quinta-feira fria e depois da projeção de um filme horroroso intitulado “Avanti Popolo” – que caiu nas graças dos críticos e do júri oficial.

A premiação desse filme de Michael Wahrmann, que tem o saudoso cineasta Carlos Reinchbach como ator e o qual foi premiado como o melhor ator, me causou uma outra reflexão: porque os críticos cultuam algo ao ponto de provocar injustiças? Que me desculpem os realizadores de “Avante Popolo”, mas a primeira coisa que o público vai fazer com menos de 20 minutos de sua projeção em um cinema será abandoná-lo. A premiação se deu como uma homenagem dos críticos a Carlão Reichenbach. Um enorme absurdo. Pior ainda a atitude de um júri que premia “Exilados do Vulcão” como o melhor filme. Um “espetáculo” indecifrável e impossível de ser compreendido. Tanto que metade do público do Cine Brasília abandonou a sala durante a sua projeção. Claro, foi aplaudido (de forma nada entusiástica) ao final da sessão de tortura, mas se entende isso porque público de festival, no Brasil, é o mais benevolente possível. Ninguém vaia, ninguém xinga. Mas o júri, com toda a sua sapiência, o entendeu direitinho, claro.

“Avante Popolo” e “Exilados do Vulcão” foram premiados por “suas estéticas inovadoras” e “ousadias formais”. Meu Deus! Um ficou no passado há 100 anos quando o cinema ainda era mudo e evoluiu a partir daí; o outro assume uma intelectualidade para admiradores de “obras difíceis”, mas que afugentam o público como o diabo foge da cruz. Palmas para os críticos. Palmas para o júri oficial.

Campeão

Os 80 heróis que enfrentaram o frio da meia-noite em uma fila heroica elegeram o filme Rosemberg como o melhor do festival. O povo é sábio, sabe o que quer ver na tela. O público que acompanhou os filmes em competição deu uma lição de sabedoria nos críticos e nos jurados do festival. Isso pode ser um repensar para ambos. Que a reflexão gere consciência de que o cinema se destina a ele, ao público, não aos críticos, pois somos, pelo menos no meu entendimento, meros instrumentos de ligação entre a obra e o público.

Sem essa intermediação, qual a razão e sentido da existência da crítica?

Por PEDRO MARTINS FREIRE do Diário do Nordeste.

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