Cinema do Dragão: um dos melhores espaços cinéfilos do Brasil

A primeira vez em que vi Pedro Azevedo Moreira, achei estar sendo vítima de algum tipo de brincadeira. Diante de mim, um moleque de 20 anos – e com aparência de ser ainda mais jovem – se dizia um dos dois programadores do Cinema do Dragão do Mar, uma sala que eu acabara de conhecer em Fortaleza e que me impressionara pela qualidade da projeção e pelo conforto das poltronas. Lendo a programação das duas salas, eu havia sido tomado por uma inveja ainda maior dos cearenses, já que as sessões alternavam longas com viés mais popular e outros que certamente seriam exibidos em pouquíssimas salas em todo o Brasil e atingiriam um público pequeno, mas privilegiado.

E aquele menino dizia ser um dos responsáveis por escolher quais filmes seriam escalados naquele espaço.

Com alguns minutos de conversa, porém, vi que a idade do jovem Pedro era irrelevante: aos 20 anos, ele discorria confortavelmente sobre a lógica da programação, sobre sua preocupação em combinar filmes que atraíssem o público com outros que se beneficiariam da exposição trazida pelos primeiros e também seu interesse em resgatar clássicos que pudessem ser apreciados na telona por uma geração de novos cinéfilos. Eu, que normalmente me vejo tão pessimista com a falta de interesse de tantos com relação ao Cinema, senti impulso de abraçar o moleque e dizer “Obrigado! Obrigado!”.

Ainda assim, havia o fato de que ele tinha apenas 20 anos de idade. Como alguém tivera a coragem de colocá-lo a cargo do cinema? Foi então que ele explicou que dividia o trabalho com outra pessoa, Salomão Santana, parecendo nutrir respeito e admiração pelo colega.

Ah, claro. Estava explicado: “Salomão” me soava como nome de alguém mais velho – e certamente ele era o adulto responsável pela operação, sendo auxiliado na tarefa por Pedro.

Quando encontrei Salomão, pouco depois, percebi estar diante de outro garoto. Embora um pouco mais velho – 28 anos -, era também um moleque com rosto quase adolescente. E obviamente encontrava-se longe do senhor que eu visualizara ao ouvir seu nome. Não demorou muito até que ele, como o amigo, me convencesse estar diante de outro cinéfilo dedicado e inteligente.

Mas ainda assim me espantava vê-los como os responsáveis por duas salas que, depois de um longo tempo fechadas, haviam sido completamente reformadas a um custo entre 1,5 milhão e 2 milhões de reais e que incluíam a instalação de projetores de última geração, capazes de uma projeção absolutamente fantástica em 35mm e 4K (na sala 2) e 2k (na sala 1) e com um sistema de som que ia do mono ao 7.1 Dolby. Isto tudo em espaços com poltronas amplas, confortáveis e com uma tela de tamanho altamente satisfatório. Quem, afinal, fora o maluco que apostara nos dois jovens?

Na realidade, como descobri depois, foram vários malucos – e uso o termo carinhosamente por admirar o acerto da decisão corajosa tomada por eles: o primeiro, claro, foi Paulo Linhares, criador do Dragão do Mar que, ao decidir voltar a tomar conta das salas de cinema até então administradas pelo Unibanco e, depois, pelo Itaú, resolvera que era fundamental criar um perfil novo de público que prestigiasse o espaço. Para isso, Linhares estabeleceu uma parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, de Recife, que já vinha fazendo um trabalho exemplar em seu Cinema da Fundação (que também conheci e que me encantou profundamente). Entram aí os dois malucos adicionais, que, já responsáveis pela sala de exibição pernambucana, aceitaram coordenar o Cinema do Dragão: o professor e crítico de cinema Luiz Joaquim e o realizador e crítico Kléber Mendonça Filho.

Cinema do Dragao 2

A ideia inicial do trio era encontrar um curador local que, baseado em Fortaleza, pudesse supervisionar o dia-a-dia das duas salas, mas logo o conceito se expandiu e surgiu o consenso de encontrar um equilíbrio na contratação de um realizador e um crítico de cinema – e aí entraram, respectivamente, Salomão Santana e Pedro Azevedo Moreira, que já conheciam Mendonça Filho de festivais e conversas anteriores.

O resultado? Reaberto em setembro de 2013, o Cinema do Dragão já levou 40 mil espectadores às suas duas salas em apenas sete meses – e o trabalho feito desde então e a qualidade dos projetores conseguiram convencer até mesmo o rígido Arquivo Nacional a liberar, para uma mostra recente em comemoração dos 15 anos do Dragão do Mar, uma cópia em 35mm do clássico brasileiro Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues – uma liberação rara em função da qualidade da cópia e do temor justificado de que pudesse ser danificada em uma exibição sem cuidado. No entanto, convencidos pelo trabalho no Dragão (e pela carta escrita por Moreira e Santana), os responsáveis pelo acervo permitiram que o público presente na mostra pudesse desfrutar de uma sessão impecável de um longa idem, homenageando, no processo, o ator cearense José Wilker, falecido recentemente e que oferece um de seus desempenhos mais memoráveis naquela obra.

Desde minha primeira visita ao Cinema do Dragão, voltei duas vezes – e a cada nova sessão, invejo mais e mais os cearenses. E me encanto com a empolgação, a inteligência e os esforços dos dois jovens cinéfilos que fazem o espaço funcionar em seu dia-a-dia.

Aliás, meu encantamento é tamanho que, confesso, temi transformar este texto em um daqueles elogios rasgados durante os quais o autor acaba parecendo perder completamente a capacidade crítica – e até pensei em incluir, aqui e ali, alguma observação negativa para tentar “equilibrar” as coisas. Até que me dei conta de que a única reclamação que poderia fazer era a de que as salas não estão em Belo Horizonte, onde moro.

Então que se dane. O Cinema do Dragão já se tornou um de meus espaços cinéfilos mais queridos – e se você mora em Fortaleza e não costuma frequentá-lo, está cometendo um erro descomunal e não sabe o quanto é privilegiado(a).

E se você vai sempre às duas salas do Instituto Dragão do Mar… bom, saiba que estou me mordendo de inveja.

Por Pablo Villaça em Cinema em Cena.

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