‘Cine Holliúdy’: de Pacatuba para o Brasil

Cine-Holliudy-Ator2Tratado pela cena audiovisual brasileira como um canteiro para experiências autorais, o Ceará provou ser bom também em lotar cinemas (e fazer multidões rirem) ao emplacar o mais inusitado fenômeno de bilheteria do ano no país: “Cine Holiúdy”. Com legendas para o traduzir o “cearês” (ou “cearencês”), o dialeto do estado, a produção de R$ 1 milhão dirigida por Halder Gomes chega só hoje ao Sudeste, com 43 cópias (15 no Rio), cerca de 15 semanas após sua estreia em Fortaleza, período em que impressionou o mercado exibidor com 400 mil ingressos vendidos apenas no Nordeste. Foram 280 mil pagantes só em solo cearense, onde o filme estreou em 9 de agosto, ocupando dez das 50 salas locais. “Cine Holiúdy” tornou-se o maior sucesso de público de toda a história do Ceará nas telas.

— Quando o filme caiu em nossas mãos, nossa ambição, no otimismo, era chegar a 50 mil pagantes. Quando ele explodiu no Ceará, o mercado viu que fenômenos regionais existem e fazem diferença — diz Bruno Wainer, distribuidor do longa pela Downtown Filmes.

Com mais 50 mil espectadores das regiões Centro-Oeste e Norte, a arrecadação de “Cine Holliúdy” hoje chega a R$ 4,6 milhões. É uma rentabilidade capaz de deixar muito candidato a blackbuster no chinelo. E ela surpreende mais quando se sabe que a comédia de Halder, sobre o dono de um cineminha em Pacatuba (cidade a 40 minutos de Fortaleza), foi rejeitada em editais, em sua fase de captação, e nas mostras competitivas de alguns dos maiores festivais do país, depois de pronta, por seu caráter popular escancarado.

— Festivais como os de Gramado, Rio, Amazonas, Brasília, Ceará e o Cine PE (em Olinda) ignoraram o filme em suas competições. As curadorias nacionais ignoram comédias. Mas ele correu mostras no exterior, como as de Bangcoc, Los Angeles, Lisboa e Montevidéu, conquistando em todos os festivais estrangeiros em que concorreu, vitória na categoria voto popular — orgulha-se Halder, cineasta de 46 anos formado em Administração, que foi dono de academia de artes marciais e produtor do também sucesso “Bezerra de Menezes — O diário de um espírito” (2008).

O êxito de “Cine Holliúdy” (cuja parte dois já foi encomendada) garantiu ao cineasta a reverência de um midas das bilheterias no país: seu conterrâneo Renato Aragão, astro de 30 blockbusters.

— Fiquei maravilhado ao ver uma pessoa ser ousada o suficiente para fazer um filme no dialeto de nossa terra e levá-lo, na raça, para o país todo — aplaude o eterno Didi Mocó. — O filme atravessou fronteiras porque é bom. Não foi só o Ceará que venceu junto com Halder. Foi o Brasil.

Instrutor de taekwondo

Rodado na capital cearense e em locações em Quixeramobim, Quixadá e na própria Pacatuba, “Cine Holliúdy” é derivado de um curta homônimo de 2004, orçado em R$ 50 mil e lançado com o subtítulo de “O artista contra o cabra do mal”. Ali, em 15 minutos, Halder criou Francisgleydisson (vivido por Edmilson Filho). Dono de um cinema no interior do Ceará dos anos 1970, ele inventa loucas peripécias (como simular cenas de luta) para manter a casa lotada, apesar da concorrência da televisão.

— Quando o curta foi disponibilizado nas locadoras do Ceará, superou filmes como “Matrix”, entre outros blockbusters, na procura popular — vibra Halder.

No longa, a luta de Francisgleydisson se torna mais difícil, pois a sobrevivência de seu poeira é o tudo o que pode garantir o sustento de sua mulher (Miriam Freeland) e filho (Joel Gomes).

— Meu filme fala sério quando aborda a desaparição dos cinemas de rua do Brasil — diz Halder, que, de passagem pelos EUA, como stunt fighter (dublê de lutas) e instrutor de taekwondo, acabou dirigindo um longa em inglês, “Cadáveres 2” (2008), em parceria com seu parceiro de lutas, Gerson Sanginitto.

Com a adesão de Edmilson para repetir o papel de Francisgleydisson, o diretor resolveu expandir o universo de seu herói para o formato longa após os elogios que colheu no Festival do Rio de 2005. Inscreveu então o projeto nos editais de baixo orçamento do MinC. Foi esnobado quatro vezes, até ser contemplado na cota regional do Nordeste.

— Meu instinto de lutador, acostumado a cair e se levantar, fala mais alto nas horas de dificuldades. São muitas as variáveis para o mercado e as curadorias serem míopes ao potencial de um filme. O meu foi confundido com uma comédia sem reflexão séria. Mas o sucesso do curta que o originou me dava a certeza de que havia uma plateia formada para “Cine Holliúdy”, assim como me dava a confiança de que seu lado exótico despertaria curiosidade fora do Ceará — diz Halder, que hoje prepara a comédia “O shaolin do sertão”, também ligada à tradição cinéfila nordestina e a kung fu.

Para analistas de mercado, a fórmula de distribuição de “Cine Holliúdy” — concentrar o lançamento em seu estado de origem e depois expandir, primeiro regionalmente, e mais tarde para âmbito nacional — foi um balão de ensaio para uma nova fórmula.

— Pode-se dizer que esta comédia cearense é um filme experimental em parâmetros de mercado, pois mostrou que é possível fazer sucesso de dentro para fora, aos poucos, pelas beiradas — analisa Paulo Sérgio Almeida, diretor do site Filme B, que avalia bilheterias no país.

Dois outros títulos vão seguir o mesmo caminho: o mineiro “O menino no espelho”, de Guilherme Fiúza Zenha, e o sergipano “A pelada”, de Damien Chemin.

— Quando a plateia de uma região se identifica com o que vê, ela reage bem — diz Halder. — Com meu filme foi assim.

Fonte: O Globo.

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